sábado, 26 de junho de 2010

A Lealdade De Um Cão


Essa é uma história verídica. Talvez não cabe com o objetivo do blog, mas cabe como uma forma de reflexão de como estamos vivendo. Que vida é essa onde o sistema tenta fazer que, ao invés de semear-mos amigos, estamos colhendo inimigos. Um exemplo de fidelidade que acredito que na história contemporânea não se acontecer mais.


Bobby vive até hoje nos corações dos escoceses.
Em 1864, em Edinburgh, Escócia, vivia um velho homem chamado Jock. Durante toda vida tinha sido um fiel pastor de ovelhas, enfrentando bravamente perigos e intempéries para defender o rebanho. Com quase setenta anos, ainda conservava o coração e a habilidade de um pastor, mas não a saúde necessária. Suas pernas já não podiam escalar as pedras para resgatar uma ovelha ou para espantar um predador. E embora a família para quem trabalhava gostasse muito dele, as finanças iam mal e não podiam conservá-lo. Assim, mancando por fora e magoado por dentro, lá se foi ele de trem, deixando sua terra natal rumo a um novo lar na cidade.
Jock fazia um pouco de tudo e ganhou muitos amigos naquela cidade de mercadores. Eles gostavam do velho Jock pelo seu sorriso simpático, e por suas habilidades nos mais variados trabalhos. Mas, apesar de tantos amigos, sua família se constituía apenas dele e de um cachorrinho Fox Terrier que ele adotou com o nome de Bobby.

Jock e Bobby eram inseparáveis e estavam sempre juntos na rotina de passar pelas lojas em busca de serviços. Todos os dias eles começavam pelo restaurante local, onde recebiam o que comer em troca de serviços de Jock. Depois continuavam de porta em porta até que finalmente, à noite, os dois voltavam para um porão que lhes servia de morada.
Dizem que muitas pessoas pressentem quando o tempo de morrer esta próximo. Foi assim com Jock. Já havia passado quase um ano desde que chegara à cidade. Agora era pleno verão e as colinas estavam em flor. Um dia, ao amanhecer, ao invés de levantar, o velho Jock puxou sua cama até perto da janelinha do quarto. E lá ficou, olhando as montanhas distantes de sua amada Escócia.
Bobby - disse ele afagando o pêlo escuro e denso do cachorro, com a mão que agora só tinha a força do amor-, é tempo de eu ir para casa. Eles não conseguirão me afastar de minha terra novamente. Sinto muito, camarada, mas você vai ter de se cuidar sozinho daqui por diante.

Jock foi enterrado no dia seguinte em um lugar pouco comum para pobres. Por causa do lugar onde morreu e da necessidade de ser enterrado rapidamente, seus restos mortais foram colocados num dos cemitérios mais nobres de Edinburgh, o cemitério Greyfriar. Entre os grandes e mais nobres homens da Escócia, foi enterrado um homem comum e simples. Mas é aqui que nossa história começa.
Na manhã seguinte, o pequeno Bobby apareceu no mesmo restaurante que ele e Jock visitavam cada manhã. A seguir ele fez a ronda das lojas, como ele e Jock haviam sempre feito. Isto aconteceu dia após dia. Mas à noite o cachorrinho desaparecia e somente reaparecia no restaurante no dia seguinte.
Amigos do velho Jock se perguntavam onde o cachorro ia dormir, até que o mistério foi resolvido. Cada noite, Bobby não ia à procura de um lugar quente para dormir, nem mesmo de um abrigo para protegê-lo do frio e da chuva constantes da Escócia. Ele ia até o cemitério Greyfriar e tomava posição ao lado de seu dono.
O vigia do cemitério tocava o cachorro cada vez que o via. Afinal, existia uma ordem expressa, proibindo cachorros de entrarem em cemitérios. O homem tentou consertar a cerca e até pôs armadilhas para caçar o cachorro. Finalmente, com a ajuda do chefe de polícia, o pequeno Bobby foi capturado e preso por não ter uma licença. E uma vez que ninguém podia apresentar-se como legítimo dono daquele cachorro, parecia que Bobby seria morto.

Amigos do velho Jock e de Bobby que souberam do caso foram até a corte local a favor de Bobby. Finalmente, chegou o dia quando o caso deles iria ser apresentado à alta corte de Edinburgh.
Seria quase um milagre salvar a vida de Bobby, sem mencionar o tornar possível, para aquele cão fiel, poder ficar perto do túmulo de seu amigo. Mas foi exatamente o que aconteceu, como um ato sem precedentes na história da Escócia.

Antes que o juiz pudesse dar a sentença, uma horda de crianças entrou na sala de audiência. Moeda por moeda, aquelas crianças conseguiram a quantia necessária para a licença de Bobby.
O oficial da corte ficou tão impressionado pela afeição das crianças pelo animal que concedeu a ele um título especial, tornando-o propriedade da cidade, com uma coleira declarando este fato.
Bobby pôde então correr livremente, brincando com as crianças durante o dia. Mas cada noite, durante quatorze anos até que morreu em 1879, aquele amigo leal manteve guarda silenciosa no cemitério de Greyfriar, bem ao lado de seu dono. Se algum dia você for para Edinburgh, poderá ver a estátua de Bobby naquele cemitério que ainda está lá, mais de 120 anos de sua morte.

São Sebastião festeja 17 anos

Embora seja mais antiga do que a capital federal, a então agrovila passou à condição de região administrativa em 25 de junho de 1993 e adotou a data como referência

Do alto do Morro da Cruz, pode-se ver uma cidade com 17 anos de inauguração, mas com décadas de existência, histórias e vitórias. Ontem, São Sebastião completou mais um ano e comemora o aniversário com uma agenda cheia de atrações para a comunidade, que totaliza 100 mil pessoas, sendo que 47% são jovens com menos de 20 anos. A festa começou quinta-feira, com o desfile cívico e a Ação de Segurança Pública, e termina hoje, com bandas e artistas locais e nacionais. O desfile contou com 24 escolas públicas e particulares. A Administração Regional preparou um bolo com 17 metros de comprimento para os moradores. As festividades iniciais ocorreram no estacionamento do Caic. Hoje, as comemorações ocorrem no Parque de Exposições Agropecuárias de São Sebastião, a partir das 16h.

A Ação de Segurança Pública reuniu policiais militares, da Companhia de Polícia Ambiental, da Polícia Civil, do Corpo de Bombeiros e do Departamento de Trânsito. As bandas da Polícia Militar e do Corpo de Bombeiros se apresentaram fazendo as honrarias do evento. O público ainda pode conferir exposições promovidas pelos órgãos governamentais como a Delegacia da Mulher e o Arquivo Público de Brasília. Alan Valim Maia, administrador de São Sebastião, conta que a programação para o fim de semana será variada e deve receber de 15 a 20 mil pessoas por dia. “Vale a pena comparecer ao evento. Trabalhamos para fazer uma festa à altura dos moradores. Quem vier, pode esperar uma festa bonita e organizada. Nossa cidade tem problemas, mas também tem muito o que comemorar. Em breve, será uma das melhores do Distrito Federal”, afirma.

De acordo com a Administração Regional, as comemorações contarão com um efetivo de 200 homens da Polícia Militar e 35 policiais civis. O morador e pioneiro Edvair Ribeiro dos Santos, 48 anos, acredita que a festa começou bem e vai continuar melhor. “Está tudo perfeito. A cidade merece esse presente. É um berço de talentos. Acompanhei o crescimento deste lugar. Não havia conforto nenhum. Vi chegar a luz, a água, o asfalto. Agora, temos tudo de que precisamos. Nunca me vi morando em outra cidade”, conta o caminhoneiro, que chegou ao local em 1966.

A origem

Apesar da inauguração recente, São Sebastião começou a ser construída em 1957, na mesma época em que começou a edificação de Brasília. Ali foram instaladas olarias que forneciam os tijolos para os prédios e monumentos da capital do Brasil. Com o tempo, foram se formando núcleos urbanos na região, que cresceram e se desenvolveram. Mas apenas em 25 de junho de 1993, a então Agrovila se tornou a Região Administrativa XIV. Esse dia ficou sendo a data de aniversário da cidade.
Antigos moradores contam que a história de São Sebastião é mais antiga do que muitos pensam. “Botei os pés aqui em 20 de maio de 1959, ainda criança. Nessa época, ainda tinham fazendas de escravos. Era só mato e esperança. Hoje, fico feliz da vida de ver tanta gente nessa cidade, entrando e saindo de suas casas, indo trabalhar. Pra mim é motivo de alegria”, emociona-se Sebastião de Azevedo Rodrigues, 66, conhecido por todos como Tião Areia. Ele ajudou a transformar o lugar em uma grande cidade, que carrega no nome uma homenagem ao fundador. “Me sinto realizado. Todo mundo me trata bem demais da conta. Sempre peço a Deus para me deixar ver ainda vários aniversários desse querido lugar, da minha São Sebastião.”

sexta-feira, 25 de junho de 2010

Sistema de Abastecimento de Água de São Sebastião

A Sinopse do Sistema de Abastecimento de Água do Distrito Federal - SIAGUA é o relatório anual da Diretoria de Produção e Comercialização - DP da CAESB que tem o objetivo de fornecer ao público interessado um panorama geral do abastecimento de água nas áreas urbanas do DF. O SIAGUA é a consolidação dos dados encaminhados pelas áreas operacionais da empresa com o objetivo de integrar as informações relativas ao abastecimento de água no Distrito Federal.

O SIAGUA possui uma abordagem técnica simplificada com a formatação dos seus gráficos, diagramas e tabelas especialmente desenvolvidas para facilitar o entendimento das características do sistema de abastecimento de água gerido pela CAESB. Este relatório é destinado àqueles que desejam conhecer melhor a CAESB e suas tecnologias de produção, distribuição e controle do abastecimento de água no Distrito Federal. As informações presentes no SIAGUA têm o objetivo de atender as demandas de estudantes, pesquisadores e órgãos públicos que poderão utilizá-las para promover a construção de uma gestão participativa da água no Distrito Federal. O SIAGUA é distribuído em CD, na rede interna de computadores da CAESB e através do website da companhia na internet (http://www.caesb.df.gov.br).

O Sistema de abastecimento de São Sebastião foi concebido, em uma primeira fase, com base na utilização de captação de águas subterrâneas, em conformidade com estudos geofísicos do subsolo da região realizados pela CAESB. A atual capacidade de produção dos poços totaliza o valor de 199 l/s, sendo que, em 2002, foi produzida uma vazão média de 87 l/s, representando aproximadamente 1% da vazão total
produzida pela CAESB no ano. Esse sistema abastece cerca de 2% da população atendida do Distrito Federal.

O Sistema é constituído por 16 poços tubulares profundos em operação, distribuídos ao longo da cidade. As duas unidades de tratamento, em fase de implantação, contarão com sistema de cloração, utilizando  equipamento de geração de cloro “in loco” e sistema de fluoretação, utilizando-se como agente fluoretante o ácido fluossilícico. Foram implantados, inicialmente, 8 pontos de cloração, em 8 dos 16 poços existentes,  para desinfecção provisória de toda a água produzida. Atualmente, parte da água recalcada é distribuída  diretamente na rede e, por essa razão, têm se verificado problemas no abastecimento de alguns setores da  cidade, tais como pressões baixas e falta de água.

Licenciamento Ambiental

Os licenciamentos referentes aos poços de São Sebastião foram juntados, compreendendo o SAA de
São Sebastião, incluindo reservatórios, equipamentos e redes de abastecimento. Os processos de  licenciamento dos poços isolados (INCRA 8, Águas Claras, Pólo JK e Sobradinho II) foram arquivados, passando a serem acompanhados através da Outorga do Direito de Uso de Recursos Hídricos, pela  SEMARH. Assumindo o abastecimento do Bairro Arapoanga em Planaltina, a CAESB perfurou o poço AR -10, outorgado pela SEMARH.

Para os demais poços do Arapoanga cabe ao empreendedor inicial transferir licenciamento ambiental
e outorga à CAESB. Os empreendimentos inclusos no Programa de Saneamento do Distrito Federal, com recursos do BID, encontram-se com situação ambiental regularizada, quer por licenciamento, quer por autorizações . Nos casos em que o impacto ambiental provocado por determinados empreendimentos é considerado temporário ou de pequena monta, o texto legal dispensa o empreendedor do licenciamento  ambiental. Neste caso, atendendo a requerimento do interessado, o órgão ambiental analisa a concessão de "Autorização Ambiental", documento menos restritivo e de trâmite mais simplificado. Ainda assim, no caso da CAESB, o assunto é permanentemente acompanhado por técnicos especializados da própria Companhia.

A CAESB gerencia as licenças ambientais de 19 captações superficiais e do SAA de São Sebastião (20 poços), incluindo estações elevatórias, equipamentos, adutoras e redes, além da ETA-Brasília. No interesse de outros órgãos, tais como a TERRACAP , o DER e a própria SEMARH/DF, a CAESB atua, ainda,  quando solicitada, como consultora e examinadora em matéria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos, compondo Comissões de Acompanhamento, Avaliação e Recebimento de EPIAs RIMAs, inclusive  pronunciando-se oficialmente quanto à viabilidade de abastecimento público de água e de esgotamento  sanitário a inúmeros empreendimentos de interesse do Governos do Distrito Federal.

Fonte: Siágua

segunda-feira, 21 de junho de 2010

Passageiros protestam contra transporte público em São Sebastião

Protesto de passageiros em São Sebastião na manhã desta quinta-feira, dia 17. Todas as saídas da cidade foram bloqueadas pelos moradores do Morro Azul, última quadra pra quem segue no sentido Plano Piloto. Eles estavam revoltados com o transporte público. “A reivindicação é pra ter ônibus, que coloquem os ônibus na rua como antes. A gente fica na parada por uma hora e até duas horas, mas não passam os ônibus”, reclama o morador Ribeiro Borges. 


“Os ônibus estão uma precariedade. Muitos passageiros estão reclamando, ninguém dá uma solução. Eu moro na Quadra 203, e pra pegar o ônibus tenho que caminhar até a Quadra 209, isso dá quase quatro quilômetros”, diz a moradora Gracenilda Sodré.  Os manifestantes liberaram apenas os carros pequenos, mas os ônibus foram impedidos de passar. “Os ônibus não param porque estão tudo lotados. E se a gente não vai, então, não vai ninguém. Ou vai todo mundo ou não vai ninguém”, enfatiza a moradora Elisabete Souza.


“O pior é que prejudica a gente, todo mundo aqui é trabalhador, precisa ir para o trabalho. Estou desde cedo na parada e não passa um ônibus. Isso é um absurdo”, afirma a moradora Fátima Maria. Uma cobradora por pouco não foi agredida por alguns passageiros. “Os passageiros queriam o dinheiro de volta, mas não tem como a gente devolver o dinheiro, se não tenho que pagar do meu bolso”, diz. Quem estava nos ônibus foi relocado em outro veículo. Muita gente não conseguiu embarcar. “Agora, vou esperar o meu marido vir me buscar pra poder voltar pra casa”, fala uma senhora. 

O trânsito só foi liberado por volta das 9h30. “Se não tiver ônibus, nós vamos ficar aqui novamente. E vai perder o dia de novo”, afirma uma mulher.

Acompanhe a reportagem:

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Cidade Escondida

Rafael e Boa, os donos da vila

Nos arredores do Plano Piloto, existem pequenas localidades que repetem velhas tradições brasileiras de dar ao lugar o nome de quem nele primeiro chegou. Algumas são miseráveis, outras têm jeito de vida no interior

BAIRRO VILA DO BOA
Por detrás da fachada modernista, existe uma Brasília de coração antigo, que transporta lembranças de um passado colonial, e disso quase nem sabe. As 18 vilas existentes no Distrito Federal são uma dessas pontes com as cidades de antigamente. Duas delas nasceram com o Plano Piloto, a Vila Planalto e a Vila Metropolitana. Algumas abrigam populações pobres, como a Vila Roriz e a Buritis. Outras, miseráveis, como a Vila Rafael e a Estrutural. E uma mantém a atmosfera rural, um perfume de coisas da terra, a Vila do Boa.

Vila Rafael e Vila do Boa assim se chamam em homenagem a seus fundadores, dois homens que há muito moram na terra. Há tanto tempo que quem chegava procurando um endereço, alguém respondia: Lá no Rafael, lá no Boa. Daí, o hábito fixou o nome. Vila do Boa assim se chama por conta do nome do antigo proprietário das terras, Boaventura da Silva, baiano de Barreiras, 67 anos. Seu Boa foi um dos mais bem-sucedidos produtores de hortaliças entre meados da década de 1970 e 1980 na região onde hoje se instala a cidade de São Sebastião, que também já foi vila. Com o tempo, foi dividindo os 15 hectares comprados em sociedade com um parente no início dos anos 70. Quando se separou da mulher, Senhorinha Pereira da Silva, a área restante foi loteada entre os dez filhos, que, por sua vez, retalharam seu pedaço de chão. O resultado é um aglomerado de casas modestas, no declive de um morro à entrada de São Sebastião. O homenageado diz não gostar muito da deferência. "Não morri, morto é que é nome das coisas", reage Boa, com disfarçado orgulho. Dona Senhorinha, a ex-mulher, continuou na casa onde nasceram quatro de seus filhos.

SEU BOAVENTURA DIZ QUE NÃO GOSTA DA HOMENAGEM, “AINDA NÃO MORRI”
O ex-marido passou alguns anos fora do Distrito Federal e, de volta, se alojou num barraco por ali. Seu Boa de volta à Vila do Boa. Mas, a autoridade máxima do lugar é dona Senhorinha, mulher de porte altivo, andar suave, longos cabelos brancos suavemente penteados. Sete dos dez filhos de dona Senhorinha e seu Boa moram na vila. Além deles, netos, bisnetos, sobrinhos, primos, uma grande família rodeada de si mesma. Todos, portanto, se conhecem na vila de duas ruas principais e algumas ruelas transversais. Não há aquele que não cumprimente dona Senhorinha, peça-lhe informação sobre almoços e festas na paróquia, sobre preço de casas que estão à venda. Crianças e adolescentes pedem-lhe a bênção, sejam ou não parentes. "Não é parente, mas é quase", diz ela. Só o ex-casal não se cumprimenta, por conta de velhas mágoas que dona Senhorinha considera imperdoáveis. Ninguém diz a causa do ressentimento, mas seu Boa se diz com "vergonha".

A outra vila, a do Rafael, também está cheia de mágoa, porém beirando à indignação, quase perto do ódio. Deu-se o nome de vila a um punhado de barracos miseráveis, feitos de pedaços carcomidos de madeirite e remendos de telha de amianto, encostada numa erosão à margem da BR-070, depois do Setor O, onde a Ceilândia acaba. Está plantada numa área originalmente destinada ao curral comunitário. Tanto que até hoje muitos conhecem o lugar como "o curral". A área é ocupada há mais de 12 anos. Rafael Balduíno de Queiroz, 58 anos, foi o primeiro a chegar. Daí o nome da vila. Veio bem antes, para ocupar o curral, quando ainda era carroceiro. Hoje fabrica manilhas.

Com o tempo, vieram novas famílias. No final do ano passado, O governo do Distrito Federal fez o cadastro dos ocupantes da área. Rabiscou um número e uma sigla na parede de cada barraco. Era o sinal de que, removidas, as famílias teriam direito a um naco de terra em outro lugar, como reza a política fundiária do GDF há mais de década. Mas até agora nada. Mais um motivo para o carroceiro Valdeci Araújo da Rocha, 34 anos, esbugalhar os olhos. Homem exasperado de tanto esperar as promessas de políticos em tempo de eleição e autoridades várias, Valdeci fala aos borbotões, duas veias inchadas no pescoço: “Todo mundo aqui é batalhador, guerreiro.

Quem disser que tem comida todo dia está mentindo. Quem disser que tem dinheiro pra ir ao mercado também. Nem todo mundo tem banheiro. A gente vive aqui com cavalo, rato, ratazana, carrapato. Isso aqui não presta, mas não temos para onde ir. Queria que as autoridades vissem nossa situação. Já estamos cansados. Tem dia que acordo de madrugada, sento na cama e me pergunto o que fazer. A gente não tem nem endereço. Mora onde? No curral? Isso é lugar de morar? Isso aqui é uma humilhação. Nós somos seres humanos.” Não se trata de retórica fácil. É preciso reafirmar a condição humana das cerca de 400 famílias amontoadas em barracos fétidos, sob pena de tanto eles quanto os de fora se esquecerem disso.

O esgoto corre no meio da rua e nele vê-se de tudo, até aquilo que deveria correr descarga abaixo. As crianças, e são muitas, brincam de pular o riozinho tenebroso, puxam dele o que pode lhes servir de brinquedo. Vivem na rua, porque casa quase não há. São quase todas morenas ou negras e têm nomes cheios de ípsilon, dábliu e de letras mudas. Dyovana Victoria, Dawson, Gleidson, Jamerson, Charles, Raissa (há muitas), Emily, Jéssica, Lerisneida, Jackeline, Jamerson, Robert, Gisele. Mas é Gilglezio, um garoto de 9 anos, quem mais se complica. Não sabe pronunciar o próprio nome. Para no Gil, já lhe é suficiente.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

São Sebastião vão ganhar internet de graça

Como seria ter internet de graça pela cidade? Um projeto piloto do Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria com a UnB, pretende dar esse acesso à população de baixa renda.

Imagina ter internet de graça. “Nossa, seria uma mão na roda”, diz o ambulante Amaury de Souza. “Seria interessante pelo fato de ser de graça. Existe já em outros países dessa forma. Iria economizar bastante”, fala o motorista Leonidas Silva.

Por enquanto, o sinal não vai ser liberado para toda a cidade. Apenas alguns setores específicos vão ter a internet de graça. Um projeto piloto do Ministério da Ciência e Tecnologia, em parceria com a UnB, para permitir que a população comece a ter acesso a esse mundo virtual.

São Sebastião, com 115 mil habitantes, foi uma das cidades escolhidas para fazer parte do projeto voltado para população de baixa renda. Torres vão ser instaladas perto de escolas, posto de saúde, bombeiros, posto policial e das administrações. “Esse projeto vai atingir só esses pontos, porque vai ter um estudo, uma pesquisa, pra saber no futuro o que vai ser necessário pra que atenda essa população. Futuramente, a própria localidade vai criar um método, um processo, pra trazer essa internet pra todas as residências”, explica o coordenador do projeto.

No total, R$ 200 mil vão ser investidos nessa primeira fase. E até dezembro a internet já deve estar funcionando nesses pontos. A administração da cidade é que vai manter esse sistema também de inclusão social. “Nossa cidade é muito jovem, 80% tem até 33 anos de idade. Então, é uma forma de dar oportunidade, de realizarem pesquisas nas escolas de ensino médio, fundamental, nos postos de saúde. Além de levar para a população, para os órgãos públicos - como delegacia de polícia, Corpo de Bombeiros e a Polícia Militar”, destaca o administrador de São Sebastião Alan Valin.

Mesmo que ainda não seja pra todos, os moradores já comemoram. “Vai ser ótimo”, enfatiza Ariele Landin, de 12 anos. “Vai ajudar bastante no trabalho do colégio pra fazer pesquisa. Eu acho que é muito importante, estava precisando mesmo”, afirma a doméstica Maria das Graças. Mas o uso consciente da internet é uma preocupação dos órgãos ligados à segurança. O cyber bullying, que é a violência psicológica entre os jovens, as ofensas, os ataques a honra de uma pessoa na internet está sendo discutido esta semana em todas as escolas públicas do Núcleo Bandeirante. Há palestras também sobre drogas e abuso sexual.

Acompanhe abaixo, o vídeo com a reportagem.


Viviane Costa / Juarez Dornelles
Fonte: Bom Dia DF

sexta-feira, 11 de junho de 2010

Moradores de São Sebastião reclamam da falta de calçadas

Na cidade, estudantes e moradores se arriscam entre os carros nas ruas sem calçadas. E uma praça, inaugurada a menos de três anos, já tem que passar por reforma.
Skate Park São Sebastião. 70 mil em sacos de cimento e areia?
A pista de skate em São Sebastião, feita pela Secretaria de Obras, custou R$ 209 mil. Ela foi inaugurada em março de 2008. Mas pouco tempo depois, os problemas começaram.

“O corrimão está quebrado, a solda foi mal feita, a pista é oca. Passado um tempo, já começou a dar rachadura, infiltração em razão da água da chuva”, conta skatista Wesley de Araújo.

Com a má qualidade da pista, vieram os pedidos dos skatistas por uma reforma. A Administração de São Sebastião concordou. A obra já começou e os equipamentos vão ser trocados e o piso revestido com um material próprio para a prática do esporte. A pista deve ficar pronta no mês que vem e a reforma vai custar R$ 30 mil.

Francisco Barbosa é líder comunitário da cidade e não se conforma com a reforma no local em tão pouco tempo. “Uma obra em que vai precisar quebrar tudo pra fazer de novo? É brincadeira. É fazer a gente de bobo. Um desperdício, tendo tantas coisas pra fazer”, reclama o líder comunitário.

Ao lado da pista de skate em reforma dá pra ver um dos principais problemas de São Sebastião: a falta de calçadas. E, pra isso, não há nem sinal de obra.

As crianças saem da escola e têm que andar no meio da rua. Em alguns pontos a polícia precisa fechar a pista, mas em outros os pedestres dividem o asfalto com os carros.

“A gente tem medo das crianças serem atropeladas”, diz uma jovem.

“Não tem jeito, tem que andar”, diz a diarista Maria Lopes da Rocha.

As amigas Fátima e Edileusa gostam de caminhar. Mas o exercício se torna um risco. “Muitas vezes é preciso desviar para o mato pra eles não passarem por cima da gente. Já aconteceu várias vezes de estar caminhando e os carros estarem em alta velocidade e passa pertinho da gente”, protesta a costureira Edileusa Barbosa.

A Secretaria de Obras disse que não sabia que a pista tinha problemas e nem que já está passando por reforma. A Administração de São Sebastião informou que fez quatro quilômetros de calçada na cidade no último ano e que há previsão de fazer mais quase dois quilômetros na área onde fica a pista de skate.

Luísa Doyle / Wendel Queiroz

Fonte: Bom Dia DF

São Sebastião: vida entre morros

Geraldo de Jesus, morador de São Sebastião
O jardineiro Geraldo de Jesus, 56 anos, é um típico morador de São Sebastião. Apesar das carências da cidade, não a troca por lugar algum. Gosta do sossego das ruas, mesmo com os perigos da noite. Cultiva as antigas amizades. Guarda na memória as dificuldades para fixar-se na outrora agrovila. E adora visita os "mais de 50 parentes" que também moram lá, principalmente os sobrinhos, que viu nascer e crescer em São Sebastião.

Geraldo chegou ao lugar com os pais e 10 irmãos em 1958. A família havia saído de Patos de Minas (MG) à procura de trabalho. "A gente veio arriscar. Logo meu pai conseguiu uma vaga em uma das cantinas das cerâmicas", conta Geraldo. Naquela época, São Sebastião ainda não existia como cidade. As terras que ocupava haviam sido desapropriadas dois anos antes para a construção de Brasília. Antigas fazendas deram lugar a grandes olarias e cerâmicas.

Gente de todos os cantos desembarcavam em caminhões para trabalhar na exploração e comércio de areia, tijolos e telhas. Cerca de 97% dos tijolos maciços e furados usados na construção da capital foram produzidos no local que até então era conhecido como fazenda Papuda.

Geraldo cresceu em meio a este cenário."As casas eram simples, mas tinha moradia para todo mundo. E eram de alvenaria, pois pertenciam às cerâmicas", ressalta. Outra boa lembrança eram as riquezas naturais. "Tomei muito banho no Córrego da Papuda", diz. O córrego hoje corta a parte baixa da cidade e está poluído. Ele, os irmãos e filhos dos trabalhadores das olarias e cer~micas também passavam o dia correndo atrás da bola de futebol no antigo campinho de terra batida.

Grãos e radiolas
O campinho virou Campo Central José Marciano. O nome é uma homenagem a um dos irmão de Geraldo, que morreu há 10 anos. Os outros nove irmãos do jardineiro continuam vivos e morando em São Sebastião. Todos no centro, onde fica o campo. Geraldo não tem residência fixa. Passa um tempo na casa de um dos irmãos depois muda-se para a residência de um dos sobrinhos. Sempre é bem recebido por tudos.

Quando está de folga na Cassi, a Caixa de Assistência do Banco do Brasil, que fica na 716 Sul, Geraldo trabalh com os sobrinhos. Ajuda-os a ganhar a vida com fretes em carroça puxada a cavalo. No ponto em volta do Campo Central encontra os velhos amigos carroceiros. Alguns dos quais conheceu na Escola Classe Cerâmica da Bênção, a mais antiga da cidade, onde Geraldo estudou até a 8ª série.

Com esses amigos ia aos bailes animados por música tocada em radiolas, realizados nos galpões das desativadas cerâmicas. "Era nosso único lazer. Ali a gente bebia e arrumava namorada.", lembra Geraldo. Ele não se recorda da última vez que saiu à noite a cidade. "Agora não dá, é muita confusão", queixa-se. O jardineiro também reclama da falta de opções de diversão para a juventude:"Aquie você só trabalha".

Apesar da violência que acompanha o crescimento da população, hoje em torno de mais de 90 mil pessoas, Geraldo destaca o sossego das ruas durante o dia."São Sebastião é isso> gente indo e vindo do trabalho, os estudantes e as carroças." Os morros que rodiam São Sebastião ajudam a dar o ar de agrovila à cidade ofialmente criada em  25 de junho de 1993. É a terceira cidade do DF em quantidade de empregos no campo.

Nesse lugar pacato, ainda carente de muita coisa, como cinema e teatro, o jardineiro Geraldo criou as duas filha, das quais tem muito orgulho."A Glaucia tem 24 anos e já é pediatra. A Juliana está estudando para ser jornalista", destaca. AMbas moram fora do DF. Ele só não fala da ex-mulher."Minha família são meus irmãos e meus sobrinhos que moram na minha cidade de coração."

Reportagem extraída do jornal Correio Braziliense

sexta-feira, 4 de junho de 2010

Horta Comunitária Bairro Morro Azul Quadra 12


Superação

MORADORES DO MORRO AZUL, EM SÃO SEBASTIÃO, TRANSFORMAM ÁREA ANTES INFESTADA DE HANTAVIROSE EM HORTA COMUNITÁRIA. EM SEIS MESES, ELES COLHEM A PRIMEIRA VITÓRIA

MÃES, FILHOS E NETOS PASSAM BOA PARTE DO DIA JUNTOS
Há um ano e meio, aquilo tudo era lixo, mato e morte. Foi ali que Marinalva Pinto da Cruz, uma dona-de-casa de 25 anos, cheia de sonhos e planos, morreu de hantavirose, doença transmitida pelo rato silvestre. Há um ano e meio, nada ali lembrava vida. Só em 2004, 13 pessoas foram contaminadas na região. Cinco morreram. Vieram as lágrimas, o medo, a desolação, a vontade de ir embora daquele lugar. Houve quem o fizesse. Quem deixasse tudo para trás. Mas houve também quem resistisse. E quisesse contar outra história. Há seis meses, o que parecia impossível aconteceu. E, lentamente, aquela gente começa a renascer.

Primeiro veio a pracinha, em frente à casa de Marinalva. Num mutirão de limpeza, os homens capinaram. As mulheres e as crianças recolheram a sujeira e cataram o lixo. A comunidade fez galinhada para arrecadar fundos. E lá chegaram um banquinho, um balanço e a placa, com o nome da moradora que não está mais ali. Na quadra 12 do Morro Azul, em São Sebastião, a 25 km do Plano Piloto, nasceu o primeiro monumento – simplório demais – para celebrar a vida. Ali, junto àquele placa, um sinal de esperança. Aos domingos, a praça vira o único ponto de lazer do lugar.

Mas eles – aqueles moradores humildes demais – queriam ir adiante. Não bastava apenas uma praça. Em frente a ela, ainda havia mato, rato e possivelmente risco de morte. Numa área de 6 mil metros quadrados, cedida pela administração da cidade, que os apoiou desde o início, os moradores mais uma vez se juntaram para transformar o lugar. Com ajuda de técnicos da Embrapa e da Emater, a população aprendeu a cuidar da terra, plantar e, agora, colher. Perto da casa de Marinalva, numa área cultivada de mil metros, por onde passa um minicórrego batizado de Esperança pelos moradores, nasceu uma horta comunitária.

E de lá brotam couve, cheiro-verde, cebolinha, jiló, tomate, alho, manjericão roxo, orégano, alface, mandioca, milho. A primeira melancia foi dividida em milhares de pedaços entre cada um dos moradores. Todos plantam, colhem e agora também começam a ganhar dinheiro com a produção. Junto com a horta, brotaram a auto-estima, a valorização do trabalho, a vontade de crescer e, sobretudo, o orgulho de morar naquele lugar, antes sinônimo de medo, perigo, hantavirose e morte. Num pedaço de terra do Morro Azul, famílias inteiras começaram a fazer planos de dias melhores. Hoje, mais de 30 tiram o sustento de terras onde um dia viveram ratos e entulho.

Mudança de vida

Manhã nublada de ontem. Lá estava ele, animadíssimo, de porte altivo, plantando e colhendo. Aos 78 anos, o maranhense José Luiz Mesquita é pura energia. Morador do Morro Azul, tornou-se um dos administradores da horta. Cuida da plantação como se fosse a sua casa. Homem criado na roça, aprendeu cedo os segredos da terra. Quando achava que não podia fazer mais nada, recebeu o convite do presidente da Associação dos Moradores do Morro Azul para plantar. José aceitou. Meses depois, gargalha como criança: “Eu nasci de novo”, diz. E ele, o incansável presidente da associação, Osmane José da Silva, um cozinheiro de 35 anos que arrebanhou a comunidade para o resgate da cidadania, também comemora: “Daqui a cinco anos, este lugarvai virar um oásis de frutas e legumes”.

SEU JOSÉ, DE 78 ANOS E SEU GONÇALO, DE 67, PAROU DE ADOECER
E planeja, junto do povo que acredita no mesmo ideal: “Vamos plantar pé de caju, laranja, abacate, goiaba, manga. Aqui vai voltar a ter vida.” Colega de José na administração da horta, Gonçalo de Souza Uchôa, piauiense de 67 anos, nunca mais, nos últimos seis meses, foi parar no posto de saúde por causa das crises de hipertensão. “Desde que eu vim trabalhar aqui, não senti mais nada. Tô melhorando a cada dia”, vibra. Colega dele no arado, a dona-de-casa Maria Edilene de Andrade, 34, nas horas vagas, corre para a horta.
Na manhã de ontem, levava para casa um pouco de cebolinha e couve: “De uns tempos pra cá, comecei a sentir orgulho de morar nesse lugar.” E a alegria está estampada em cada rosto. Maria Ester Almeida, de 62 anos, que a vida toda foi costureira, hoje planta e colhe. “O meu prazer é tá aqui dentro da horta. Gosto de cultivar a terra, gosto de ver o produto crescer e saber que eu ajudei nisso”, encanta-se. Maravilhada de prazer, com a mãos cheia de jiló e cebolinha recém-colhidos, Maria Ester diz o que vai preparar para o almoço: “Vou fazer um delicioso guisadinho e comer com meus 12 netos.”

De saia comprida, chinela de dedo e cabelos amarrados, a baiana Dionizia Rosa dos Santos, de 48 anos, é só alegria com o novo trabalho: “Se eu pudesse passava o dia inteiro aqui.” E comenta a transformação do lugar onde vive: “A gente morava no meio dos ratos, da sujeira. Todo mundo tinha medo da hantavirose. Hoje, a gente planta. Olha quanta diferença!”

“Larga a enxada,homem!”

Mas quem está mesmo radiante com toda essa mudança é a mulher de José Luiz, Maria de Jesus Camêlo, 57. Casada há 54 anos com o homem que viveu na roça, ela conta que hoje, depois dos 13 filhos, nove netos e oito bisnetos, ele, o marido, não pensa mais em outra coisa. “Ele tá maravilhado com a horta. Tem dia que chega a noite e ele tá aqui, plantando ou colhendo alguma coisa. Esquece até de ir para a igreja. Aí, eu digo pra ele: ‘Zé, larga essa enxada da mão! É hora de ir pra casa, homem.” Às gargalhadas, o homem de 78 anos confirma a história da mulher: “A cabeça da gente fica até mais aliviada quando trabalha.

Todo mundo do Morro Azul ficou mais feliz.” Os engenheiros agrônomos, andando pelo terreno, ouvem as histórias emocionantes daquelas pessoas: “Onde falta tudo, tudo é importante”, reflete Luiz Márcio Takayoski Ueno, de 39 anos, da Emater. O colega dele, Assis Marinho Carvalho, 40, da Embrapa, planeja o futuro: “Queremos produzir aqui uma agricultura orgânica, completamente sem agrotóxico.” E o líder comunitário Osmane, o homem que levou todo aquele povo do Morro Azul, nos confins de São Sebastião, a descobrir que ainda existe vida naquele lugar? Carrega numa pasta fotos da evolução da horta e leva para casa um maço de cebolinha. Enão diz mais nada, tamanha a emoção.

Do lixo, do mato e da hantavirose nasceu a esperança. E ela brotou no meio de uma horta comunitária, junto com cebolinhas, couves, alfaces, manjericão… Com as mãos e as chinelas de dedo sujas de terra, vidas ganharam brilho. Às vezes, é tão simples mudar o rumo das coisas. Basta acreditar nisso. E é o que admiravelmente aquela gente tem feito, até debaixo de chuva, nos últimos tempos.

São Sebastião: porque tantas nascentes?

Um reservatório subterrâneo que alimenta rios e córregos e um lençol freático farto transformam a cidade num veio de soluções de abastecimento, mas estragam ruas, mofam paredes e muros das casas

Na cidade de São Sebastião a água brota abundante do solo. Em bairros próximos aos córregos ou no alto da cidade, não é preciso cavar mais do que 20cm para ela aparecer límpida e cristalina. Por lá, morador ter nascente jorrando no quintal de casa é tão comum quanto ter água encanada saindo da torneira na cidade grande. O que à primeira vista parece um privilégio, torna-se um problema. A água das nascentes abre caminho entre as casas, corre sobre as ruas e abre regos em lotes vagos até desembocar nos rios da região. No trajeto, arranca pedaços de asfalto, apodrece muros e deixa as residências úmidas e com cheiro de mofo.

É fácil entender porque em São Sebastião existe tanta fartura de água. A cidade se expandiu sobre uma área de recarga de aqüíferos — um reservatório de água subterrâneo responsável pela perenidade das nascentes e dos córregos — e o lençol freático fica quase à flor da terra. Mas nem a Companhia de Água e Esgoto de Brasília (Caesb) nem a Secretaria de Meio Ambiente e Recursos Hídricos (Semarh) conhece a sua extensão.

Cercada por morros e pelos córregos Mata Grande e Agudo e pelo Ribeirão Santo Antônio da Papuda, as primeiras casas da cidade surgiram em 1957 quando se instalaram as olarias que forneciam telhas e tijolos para a construção de Brasília. As obras da nova capital foram concluídas, mas as habitações populares de São Sebastião, não. As casas se multiplicaram em torno das cerâmicas, algumas em operação até hoje e o
povoado virou cidade.
 
Surpresa
ALBERTINO E MARIA DESCOBRIRAM UM OLHO D’ ÁGUA NO QUINTAL DA CASA
O casal de aposentados Maria Helena e Albertino Macedo, 55 e 57 anos, comprou um lote no bairro Vila Boa, há quatro anos. Eles nem suspeitavam do que estava por vir. Um ano depois, a água começou a descer morro abaixo, invadiu o terreno e nunca mais secou. No trajeto abriu uma vala de aproximadamente 70cm de largura quintal e depois ganhou a rua até se espalhar num lote vago em frente à casa deles. Mas não se incomodaram com o fato. “Eu pensava: é uma dádiva de Deus ter uma coisa tão bonita assim, pertinho da gente. À noite, é uma beleza dormir com o barulhinho da água no ouvido”, vibra Albertino.

Mas nem tudo foi alegria. O casal percebeu um detalhe com preocupação: após a chegada da água encanada na cidade, a nascente ficou mais farta. E com a chuva deste ano, o veio começou a incomodar o vizinho do lado porque a água passava rente ao muro lavando a terra e colocando em risco a estrutura. Albertino procurou a Administração Regional de São Sebastião para saber o que fazer. Depois, funcionários do governo colocaram manilhas para canalizar a água que corria perto do muro. “Agora não tem mais problema. A gente fica é muito feliz em ter uma beleza dessa em casa”, alegra-se Maria Helena.

Sem qualquer projeto urbanístico, as residências foram erguidas em Áreas de Preservação Permanentes (APP), como nascentes, margens de córregos e sobre veredas. O Estudo e Relatório de Impacto Ambiental (EIA-Rima) é de 1994 e, já naquela época, alertava as autoridades para as conseqüências da consolidação definitiva do núcleo urbano. Em um dos trechos do documento, os técnicos escreveram que “os impactos gerados pela cidade poderão degradar a qualidade de água do Rio São Bartolomeu, que é um dos principais mananciais para o abastecimento de água do Distrito Federal”.

Durante muitos anos, a prioridade do governo era usar o Rio São Bartolomeu para captar a água destinada ao abastecimento de Brasília. Para isso seria construída uma barragem que inundaria parte das terras sobre as quais a então Vila de São Sebastião nasceu e se exapndiu. Os planos tiveram de ser mudados porque a expansão da ocupação inviabilizou o projeto. A exemplo dos 513 parcelamentos irregulares do Distrito Federal, a ocupação humana era uma realidade e a saída encontrada pelo governo foi a legalização. Atualmente são 130 mil habitantes, 84 mil deles vivendo na área urbana e os demais na área rural. Os problemas de hoje são um reflexo do desrespeito ao meio ambiente.

Promessa
Em troca da regularização, o governo deveria, entre outras coisas, preservar a vegetação nativa e adotar medidas de proteção das cabeceiras e nascentes dos corpos d’água. Passados 12 anos, o que se percebe é que muitas exigências ficaram apenas no papel. Não existe nenhum estudo sobre a qualidade da água subterrânea nem das nascentes. Mas já se sabe que os córregos estão poluídos. O lixo doméstico e entulhos estão espalhados pelas margens. Em alguns trechos as matas ciliares foram dizimadas e há assoreamento.

Os problemas foram detectados por agentes da Subsecretaria do Sistema Integrado de Vigilância, Preservação e Conservação de Mananciais (Siv-Água) num levantamento, em outubro passado. Segundo Cristina Arantes, bióloga especialista em águas continentais e coordenadora da pesquisa, ainda existe lançamento de esgoto dentro do córrego que corta a cidade, e fossas muito próximas às margens. “O diagnóstico de monitoramento da água do Córrego Mata Grande aponta a presença de matéria orgânica e uma forte tendência à eutrofização (processo de contaminação de um corpo de água por matéria orgânica em decomposição). É preciso acabar com a contaminação o quanto antes”, alertou.

Ameaça no subsolo
A falta de cuidado com os recursos hídricos não afeta apenas quem mora em São Sebastião. Os três córregos que cortam a cidade são afluentes do Rio São Bartolomeu, que acaba afetado pela poluição. E como o lençol freático é raso, a cautela com o adensamento populacional precisa ser redobrada, alerta o geógrafo Júlio Ferreira da Costa Neto, professor do Centro Universitário de Brasília (UniCeub). Quanto mais casas, mais calçadas, mais asfalto e maior é a impermeabilização do solo. O professor explica que se a água da chuva não se infiltra na terra, o depósito subterrâneo —aqüífero — começa a secar. “Se isso acontece, as nascentes vão desaparecer e, futuramente, até os córregos podem secar caso não sejam dotadas medidas de preservação.”

EMI ALVES GARANTE QUE A ÁGUA DA NASCENTE DE SUA FAZENDA É PURA
Esta não é a única ameaça. A cidade está cercada por condomínios irregulares que também captam água por meio de poços e que não contam com sistemas de esgotamento sanitário. Mas há quem confie tanto na pureza da água que dispensa o filtro e mata a sede direto na bica. É o caso da família da aposentada Emi Maria Alves, 71 anos. Na década de 80 ela mudou-se para São Sebastião com o marido e os filhos. A propriedade é banhada por duas nascentes. Uma delas corria na porta da cozinha, mas foi canalizada e transformada em bica. No bairro Morro Azul, a água escorre de janeiro a janeiro pela rua da Quadra 11. A dona-decasa Luzia Martins gosta porque as crianças brincam na água o dia inteiro, como a neta Fabiana. O mais visível dos problemas são os danos no asfalto que parece criar bolhas e na primeira chuva forte é arrancado pela enxurrada.