sexta-feira, 6 de fevereiro de 2015

Daiane Oliveira, mãe coragem



Andar alguns quilômetros pela rua de estrada de terra que separa a casa de Daiane Silva Oliveira, 25 anos, da parada de ônibus mais próxima não é a principal dificuldade dela. Todos os dias, ela luta para conquistar nem que seja uma pequena melhora na vida das filhas. Daiane é mãe de Alice Vitória, 2 anos, tetraplégica, e de Larissa, 2 meses, prematura internada no Hospital da Criança. Daiane colocou de lado o sonho de ser fisioterapeuta para se dedicar exclusivamente às filhas. Mas, como ela e o marido estão desempregados, os obstáculos cresceram.

Daiane não sabia, até o nascimento da filha mais nova, que tinha insuficiência cervical, quando a mulher não consegue suportar o peso de uma gravidez. Tanto que as duas meninas chegaram com 26 semanas de gestação. Quando Alice Vitória nasceu, ficou internada três meses, pois, além de ser prematura, sofreu duas crises hemorrágicas. Passado o primeiro susto, a família foi para casa. Daiane ainda morava em Goiânia com o pai da criança. “Mas ele não aguentou as dificuldades e nos separamos”, conta. Com a bebê no colo, a mãe voltou para Brasília. Agora mora com os pais em São Sebastião.

Acolhida pela família, Daiane começou a notar algo na pequena Alice Vitória. “Ela era muito molinha e não fazia os movimentos normais para a idade. Comecei a desconfiar.” Na busca por uma resposta, procurou vários hospitais até ser encaminhada para a Rede Sarah, onde a filha passou por um exame de ressonância magnética. Depois de alguns meses, veio o diagnóstico: tetraplegia. “As hemorragias que ela teve quando nasceu levaram a isso. Ela não tem coordenação nos quatro membros e não segura o pescoço”, explica. “Foi dolorido. Queria vê-la engatinhar, andar e falar.” 

Daiane abandonou o trabalho como operadora de caixa e passou a se dedicar 24 horas à primogênita. A rotina de Alice Vitória se divide entre a televisão e os brinquedos em casa, as atividades do Sarah, como hidroterapia, nutricionista e pediatria, e as consultas no Hospital da Criança. “Agora, tudo o que eu tenho é para ela”, conta. Apesar do amor incondicional que as duas trocam nos olhares e que alegra os dias da mãe, no fundo, resta uma grande incerteza para Daiane. “Como a lesão foi muito grande, acho que ela não vai se desenvolver muito. O médico disse que, se até os 7 anos, ela não melhorar, vai ficar como está.”

Além de todas as dificuldades, Daiane se emociona ao comentar a “humilhação” que passa nos ônibus. “É muito difícil porque não temos uma cadeira ou um carrinho adaptado para ela. Então, tenho de ir com ela no colo e levo um outro carrinho. As pessoas ficam olhando e ninguém ajuda”, lamenta. Alice não pode ficar sem o acompanhamento médico. Segundo Daiane, ela é considerada desnutrida, e os médicos avaliam se precisará de uma sonda gástrica. 

Desde que descobriu o diagnóstico de Alice, a jovem quer, a todo custo, garantir o bem-estar da filha. Ao ver a importância do cuidado com a filha tetraplégica, Daiane chegou a construir o sonho de cursar fisioterapia. “É pelo tanto que é prazeroso ajudar uma criança assim. Mas não posso realizá-lo, pois preciso cuidar das meninas”, justifica.

Dúvida
Quando voltou para Brasília, Daiane conheceu o marido, Lenieberson Alves, 33 anos. Os dois alugam uma casa em um condomínio de chácaras próximo a São Sebastião. O endereço afastado, mais barato e sossegado, é bom para Alice Vitória, que se estressa com barulho. A residência tem poucos móveis. Há tevê e geladeira, mas faltam mesa e sofá. 

Com Lenieberson, a mulher teve Larissa. Mais uma vez, os obstáculos apareceram na vida da família. A bebê nasceu prematura e precisou ficar internada no Hospital da Criança para acompanhamento. “Tem dia que as enfermeiras me ligam dizendo que ela está carente, mas, com a Alice em casa, fica complicado. Às vezes, a minha mãe vem me ajudar e eu consigo ir lá”, comenta. Nos primeiros dias de vida, a caçula também teve uma crise hemorrágica, mas, segundo Daiane, a filha não teve sequelas. 

Agora, o casal aguarda a liberação da menina. A única certeza é de que a pequena precisará de ajuda de um tubo de oxigênio para respirar. Daiane sabe que as filhas dependerão dela para toda a vida. A mãe espera na rede pública uma cirurgia para evitar uma nova gravidez, pois sabe que não tem condições. “Ter um filho especial precisa de força e determinação. É acordar cedo e não poder adoecer. É deixar de realizar sonhos e se doar. Não me arrependo, mas queria fazer mais por elas e por mim”, conclui.

"Ter um filho especial precisa de força e determinação. É acordar cedo e não poder adoecer. É deixar de realizar sonhos e se doar. Não me arrependo, mas queria fazer mais por elas e por mim”

Daiane Silva Oliveira, 
25 anos, mãe de Alice Vitória e de Larissa

Ajude
Quem quiser prestar assistência à família de Alice Vitória e Larissa pode entrar em contato com a mãe das meninas, Daiane, no telefone 9190-7465.


quinta-feira, 5 de fevereiro de 2015

Talento de São Sebastião na sapatilha



Força, foco e fé. Qualquer treinador, seja esportivo, seja acadêmico, costuma pedir que os alunos tentem cultivar essas características. Entretanto, às vezes, isso não é suficiente. Acostumado a ensaiar até seis horas por dia, o bailarino Rafael Souza Rodrigues, 18 anos, tem todos esses atributos: é talentoso e esforçado, não mede sacrifícios para viver da dança. Ele foi selecionado, em 2013 e 2014, para participar de um prestigiado curso de verão nos Estados Unidos, na American Academy of Ballet — mas não teve dinheiro para viajar. Agora, novamente aprovado para estudar no exterior, Rafael tem até 10 de fevereiro para depositar US$ 500 na conta da National Ballet Academy, em Denver, também nos Estados Unidos, e reservar a vaga. Será necessário, ainda, desembolsar US$ 7 mil referentes à hospedagem na academia.

O programa em que foi selecionado é promissor. Se for feito com dedicação, rende possibilidades reais de contratação. “É uma profissão muito efêmera. Quando você se muda, a realidade é outra. Se ele for, poderá viver com conforto, realizar trabalhos importantes e ajudar a família”, explicou a coreógrafa Regina Corvello, instrutora do jovem no Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, no Lago Sul. Mas quase nada é pago pela National Ballet Academy. Para passar um ano aperfeiçoando as técnicas, será necessário pagar aluguel de 7 mil dólares. “Não tenho condições e, por isso, peço que as pessoas me ajudem. Se der certo, vou trazer muito conhecimento. Quero aproveitar essa oportunidade, mas, sozinho, não dá.”, garantiu.

As passagens de avião foram presente de uma das professoras de Rafael, docente da Escola Classe do Lago Sul, onde o rapaz cursa o 3ª ano. Ela ficou sensibilizada com a história e a garra do aluno. Para comer, será necessário desembolsar US$ 40 por semana. “O dinheiro está sendo amealhado. Há pouco tempo, o Rafa fez um trabalho e recebeu R$ 500. Vamos trocar por moeda americana, juntar e destinar à alimentação dele”, explica Regina. Ela própria custeia o transporte de Rafael. São R$ 5 às segundas, às quartas e às sextas, e R$ 12 aos fins de semana. “Fico feliz porque as pessoas daqui me acolhem. Homem que dança balé sofre preconceito”, diz o jovem.




Para romper a barreira do idioma, Regina pediu à filha Nathália, que é tradutora, para dar aulas de inglês para Rafael. Mas o jovem, empolgado com a oportunidade de viajar e melhorar de vida, nem pensa nos problemas. “Vou me esforçar para aprender. Tenho força de vontade. Se não conseguir entender nada, fico amigo dos brasileiros. Deve ter outros lá.”

Morador de São Sebastião, Rafael diz que a região é marcada pela intolerância, e que a vida inteira sofreu discriminação. “As pessoas ainda resistem. Por isso, tinha vergonha de dizer que dançava. Um dia, resolvi participar do concurso de talentos da escola e mostrei a eles (os colegas) o que eu tinha de melhor. Hoje, as pessoas sabem e entendem.” Filho de uma cabeleireira, ele foi criado sem a presença do pai. “Eu tenho todo o apoio da minha mãe. Sempre soube que não tínhamos dinheiro, mas aprendi a ter perseverança.” 

A carreira de Rafael começou há pouco tempo. No início, encarava a dança como brincadeira. “Há mais ou menos quatro anos, minha prima me chamou para brincar na igreja que frequentávamos, em São Sebastião. Nesse dia, uma amiga da tia Regina (a coreógrafa) pediu para me ver dançar. Fui indicado por ela e comecei a dançar aqui.” O garoto, na época com 14 anos, fez um teste e passou. Agora, treina pelo menos três vezes por semana com Regina Corvello.

O bailarino acorda por volta das 7h e treina por três horas em casa. Depois, vai para a escola e, no fim do dia, pega um ônibus até o Colégio Nossa Senhora do Perpétuo Socorro, onde permanece por mais quatro horas dançando. Nesses quatro anos, participou de audições em outros estados e em Brasília — sempre bem colocado. Nos pés, estão as marcas do esforço. “Às vezes, preciso colocar esparadrapos para não ficar muito machucado. Mas, na hora da dança, não sinto nenhuma dor. Só coisas boas.”

Memória
Um brasileiro no Bolshoi

Em 2010, uma reportagem do Correio contou a história de David Motta Soares. Com 13 anos à época, o garoto tinha sido aprovado para a estudar balé na Rússia, mas a família não tinha condições financeiras de bancar a viagem. Com a ajuda dos leitores, ele conseguiu o dinheiro necessário para pagar os custos do traslado, da hospedagem e da alimentação, e, assim, aprender as melhores técnicas de dança na Academia Bolshoi, tida como a mais importante do segmento no mundo. 

Na época, foi noticiado que ele era o primeiro brasileiro aceito naquela instituição. Cinco anos depois, o menino se tornará, no fim do ano, o único homem nascido no Brasil graduado no Bolshoi. Coincidentemente, David, assim como Rafael, foi aluno da coreógrafa Regina Corvello — responsável ainda hoje pelo custeio de alguns gastos que ele tem no exterior. Sem apoio do pai e da avó, ele contava apenas com a compreensão da mãe, uma lavadeira. Hoje, quase formado, recebeu um convite para trabalhar na Alemanha e não pretende voltar ao Brasil. 

Ajuda
Quem quiser colaborar com o projeto de Rafael pode entrar em contato pelo telefone 9535-8623.