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| Produtores ensinam como a marmelada é feita: receita antiga, vinda do conhecimento de antigos quilombolas do local. |
A comunidade do Quilombo Mesquita, erguida pela força da história dos
negros, se prepara para a 14ª edição da Festa do Marmelo. Organizadas
desde sempre com o esforço dos produtores rurais da região, com a ajuda
de amigos, empresários e admiradores da tradição do povoado, a cavalgada
e a festividade nasceram com um único propósito: erguer o Santuário
Nossa Senhora D’Abadia. Quase uma década e meia depois, a igreja está
pronta. Um reparo ali, outro lá, e pronto. Mas um detalhe incomoda:
ainda não há bancos no santuário. As cadeiras usadas são de plástico,
emprestadas e mal acomodam o público para as orações. Fruto da união de
simples cidadãos, a atividade ocorrerá no segundo fim de semana de
janeiro e eles ainda não fecharam a lista do que precisam. Assim, ajuda e
doações são bem-vindas.
O povoado Mesquita fica na zona rural da
Cidade Ocidental (GO), distante 70km do Plano Piloto. A comunidade,
remanescente de quilombos, mantém as tradições dos ascendentes negros há
mais de 200 anos e suportam uma carga de mobilização e solidariedade
tradicional. A festa mesmo ocorreu pelas mãos de muitas pessoas, com o
objetivo de construir algo que pertencesse ao povo. O produtor rural
João Antônio Pereira, 67 anos, participou desde o início. “Tudo começou
porque estávamos com dificuldade para construir uma igreja grande. Havia
uma antiga, mas não suportava a quantidade de fiéis. Minha irmã teve
ideia de fazer a festa para arrecadar o dinheiro. Foi tudo construído em
esquema de mutirão. Ganhando tijolo, ferro, areia, nós fomos
levantando. Agora, temos mais essa etapa”, explica o produtor,
responsável pela atividade este ano.
“Precisamos dos bancos.
Entre 80 e 100 bancos, mas cada um custa cerca de R$ 1 mil. Podem doar
os bancos ou o dinheiro. E dá para vir conferir, porque aqui é tudo na
honestidade”, garante. Vale também fornecer comida, carne, frango e
produtos para o leilão. Aliás, é da última ação que sai boa parte dos
recursos arrecadados com a festa, principalmente com o leilão de gado,
realizado no segundo dia de comemorações. Este ano será em 10 de
janeiro, um domingo. O evento em si começa um dia antes, com a cavalgada
do povoado até a Cidade Ocidental e, por volta das 17h, com o retorno
dos cavaleiros.
Missa, almoço e leilão
Há quem aposte que o
domingo é o dia mais esperado. Tem a Santa Missa logo pela manhã, às
10h, com almoço em seguida. O leilão segue o dia todo, mas é o doce de
marmelo o personagem principal. A guloseima é feita ao vivo, na frente
dos convidados, e servida ali mesmo, em travessas, e de graça. Em 2014,
cerca de 3 mil pessoas foram ao evento nos dois dias de festa. E quem
vai sempre volta, segundo João Pereira. “Essa produção é uma tradição de
mais de 200 anos. Quem vê a primeira vez fica louco. Vem de novo e na
próxima vez traz alguém. Não quer perder mais. Isso é motivo de orgulho.
É a nossa maior gratificação”, declara o festeiro.
A fruta ainda
não está madura, mas a visão das plantações de marmelo é esplendorosa.
Os pés estão cheios nessa época e colorem o verde das árvores. Os
marmelos lembram peras. O período da colheita será bem na semana da
festa. Os cuidados, porém, começam em julho, com o preparo da terra e a
poda das árvores. Em uma das chácaras mais tradicionais, do produtor
Sinval Pereira Braga, 60 anos, a plantação passa dos 100 pés da fruta. A
forma de vida veio dos bisavós, tradição familiar comum no povoado.
“Todo fim de semana, eu cuido da plantação, faço umas podas, passo
remédio — com cuidado para não estragar o fruto —, e em janeiro,
pertinho do dia 10, a colheita pode ser feita”, explica. Sinval dedicou
mais da metade da vida à plantação de marmelo e tem apenas um desejo.
“Se essa tradição acabar um dia, vai ser triste. Não tanto pra mim, que
já estarei morto, mas eu gostaria de ver continuar”, desabafa.
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| João Antônio é o responsável pela festa este ano: só faltam os bancos para a igreja da comunidade ficar completa |
História
A Festa do Marmelo e toda a tradição da comunidade do
Quilombo Mesquita têm o apoio do movimento internacional Slow Food, um
trabalho feito voluntariamente por pessoas do mundo todo em busca da
defesa do pequeno produtor e da agricultura familiar por meio dos
alimentos tradicionais, típicos, que correm o risco de desaparecer com o
tempo. Sem contar o desperdício: de acordo com a Organização das Nações
Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), o Brasil é considerado
um dos 10 países que mais jogam comida fora em todo o mundo, com cerca
de 30% da produção praticamente dispensados na fase da pós-colheita.
"Tanto
in natura quanto aquele minimamente processado. A festa no Quilombo
produz um doce de uma receita de mais de 150 anos, que pode não existir
mais por vários motivos, entre eles, a grilagem de terra e a especulação
imobiliária. O objetivo é manter essa tradição”, analisa o funcionário
público Jean Marconi Carvalho, representante do Slow Food. Segundo Jean,
falar em extinção não se resume só aos animais que deixam de existir.
Muitos alimentos, vegetais, comportamentos culturais, métodos de
produção e histórias precisam ser cuidados.
"No caso do marmelo,
há toda uma técnica própria, específica, que poucos produtores ainda
fazem. Ainda existe a questão do êxodo rural, que preocupa ainda mais. É
importante manter as pessoas na terra, onde é o lugar delas, com
condições dignas de trabalho, com garantias e direitos, pois, hoje, toda
a estrutura é por conta deles. Não há ajuda alguma por parte de
governo”, pondera.
Não perca!
Festa do Marmelo do Quilombo Mesquita
9 de janeiro
9h — Cavalgada da comunidade
até a Cidade Ocidental
10 de janeiro
10h — Santa Missa
12h — Almoço (Ingressos: R$ 10)
O leilão segue até as 17h, com shows e fabricação de marmelo
Ajuda e doaçõesJoão Antônio: 3500-4981
Doce português
A
marmelada é uma espécie de purê de marmelo cozido com açúcar em partes
iguais para se manter em conserva. Ela tem origem na doçaria regional
portuguesa, sendo a mais famosa a de Odivelas — próximo a Lisboa —,
fabricada em um antigo mosteiro. De cor vermelha, no Brasil, a marmelada
é produzida apenas na Cidade Ocidental, em Luziânia e em pequenos
municípios do centro-sul. Passa por um processo artesanal de cozimento
em tachos de cobre tradicionais, esquentados em fogões a lenha. Depois
de pronto, o produto é embalado em caixas de madeira típica, feitas
pelos próprios produtores. A marmelada se preserva melhor em contato com
a madeira. Uma fina camada cristalizada se forma na parte superior.
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| O marmelo ainda não está maduro e a colheita só será feita uma semana antes do festival |
Memória e tradição
O
povoado Mesquita, na Cidade Ocidental, concentra algumas das mais
fortes lembranças do regime escravocrata nas terras hoje ocupadas pelo
DF e as cidades do Entorno. Lá, parte das cerca de 300 famílias negras
vivem como os ancestrais há 200 anos, sem luxo, conforto, assistência
médica, comendo apenas o que tiram da terra. Reconhecido pelo governo
federal como área remanescente de quilombo, o lugarejo cultiva goiaba,
laranja, cana-de-açúcar e mandioca, entre outras. Mas nenhuma é tão
marcante como o marmelo, fruto usado na produção da marmelada, doce
quase em extinção. Apenas quatro fazendas goianas, todas localizadas nas
vizinhas Luziânia e Cidade Ocidental, ainda produzem o produto em larga
escala. Todas dependem da mão de obra e do conhecimento de descendentes
de escravos para manter viva a tradição.